4 brincos em cada orelha + piercing na sobrancelha + piercing no lábio + calças largas + roupa preta = Daniela Prandi.
Quando eu começei a ouvir rock gótico em 2004, quando eu tinha doze anos, por influência de uma colega, eu não tinha a mínima noção de quantos problemas eu teria de encarar por simplesmente ouvir determinado tipo de música e começar a gostar de preto. Naquele ano eu começei a ouvir Evanescence toda a noite. Gostava da sensação de tristeza que a voz da Amy Lee me passava, gostava do pessimismo dela. Comecei a me interessar por roupas pretas e em uma aposta de coragem com uma amiga furei os 2º e 3º furos na minha orelha. Três brincos bem pequeninos em cada uma delas, uma camiseta da Amy, calças ‘normais’ e sandalha.
Em 2005 eu ficava cada vez mais apaixonada por aqueles três pontinhos brilhantes na minha orelha. Começei a procurar espaço na mesma em em meados daquele ano convenci minha mãe e me deixar furar o 4º furo. Fiz e tive de dormir três dias sentada devido a dor que senti depois. Mas mesmo assim continuei apaixonada por aqueles pedacinhos de metal que me adornavam as orelhas. Troquei as calças apertadas e as saias por causas largas e as sandálias e tamancos baixos pelos tênis. As blusas pretas começaram a dominar o meu guarda-roupa. Comecei a ouvir Legião Urbana.
2006 começou com mais um atributo: lápis preto nos olhos. É claro que no começo eu quase furei os meus olhos e tals, mas eu não saía de casa sem colocar as minhas falsas olheiras pretas abaixo dos olhos amarelados. Os primeiros olhares de espanto surgiram no colégio e por parte do meu pai. Não liguei muito. Na verdade eu nunca liguei muito, eu sempre gostei que me olhassem surpresos nas ruas, no shopping, no colégio… Acrescentei Green Day as minhas preferências músicais e o Evanesncence me decepcionou um pouco.
Em 2007 eu completei quinze anos e parei de usar um pouco o lápis por medo das rugas [xD]. Meus pais começaram o primeiro tempo de um jogo muito longo de separação e eu aproveitei para matricular-me no curso de bateria, já que agora estava aberta a temporada do ”puxa-saquismo” dos pais e eles já não se importavam com as minhas esquisitices. Consegui chantagear o meu pai e em Julho coloquei o meu primeiro piercing: sobrancelha esquerda, um spike. Os olhares no colégio aumentaram, as exclamações de assombro, mas as de admiração também. Críticas na Igreja Católica também surgiram, mas como sempre foram relevadas. Em Dezembro, agora morando apenas com minha mãe e minha irmã mais nova, coloquei o piercing no canto direito do meu lábio inferior. O furo mais doloroso até agora que foi acompanhado por apertões na mão da minha irmã. Pavor no colégio como de costume. Meu pai só riu. Mas a minha família no Rio Grande do Sul ficou dividida: na casa dos meus avós não recebi nenhum xingamento ou reprovação, mas na casa dos tios do meu pai sim. Eles me diziam que o anzol era para ser na boca do peixe não na minha. No começo também rejeitaram a bateria.
Eu nunca esperei ser respeitada. Também nunca deixei de me sentir magoada com certos comentários. Nunca me arrependi de ter me transformado no que sou hoje e continuo amando ver aqueles brilhinhos metálicos pelo meu rosto, mas os brincos pequenos fora substituidos por argolas e transversais. Me amo assim e não consigo me imaginar de outro jeito. Em 2008 quero fazer a minha primeira tatoo ou pintar o cabelo de azul marinho. Ah, continuo gostando loucamente do Green Day e comecei a ouvir Ramones, AC/DC, Pink Floyd, Metallica, Guns’n'Roses, Capital Inicial…

Eu vou quebrar a cara algum dia. Pensar nisso me deixa com um pouco de medo, mas não me faz voltar atrás. Só estou fazendo algo que gosto e tentando aproveitar essa fase ao máximo.